Um Ano de Luta, Resiliência e Amor: A História do Zumbi

Há exatamente um ano, no dia 3 de setembro de 2025, o nosso mundo parou. O Zumbi — o cavalo extraordinário que me levou ao nível São Jorge e me fez ser convidada para participar das classificatórias do Pan-Americano em 2018 e 2019 — entrou em uma mesa de cirurgia de emergência para lutar pela própria vida.

Nossa história com ele sempre foi de superação. Foi justamente durante a pandemia que travamos e vencemos uma dura batalha judicial para, finalmente, adquiri-lo e poder chamá-lo oficialmente de nosso. A partir daquele momento, a segurança e o nosso convívio diário fizeram um verdadeiro milagre: ele deixou para trás um comportamento que antes era muito agressivo e se transformou em um cavalo extremamente dócil, mas que mantinha toda a sua energia contagiante e um futuro brilhante na alta performance. Ele era a prova viva de que a idade é só um número. Mesmo tendo começado no adestramento já tarde, aos 12 anos, ele exalava saúde aos 18 e 19 anos, com capacidade e força para ir muito mais longe.
Mas, de repente, fomos nocauteados por um diagnóstico assustador: uma compactação líquida com acidez do ceco. É muito importante fazer um parênteses aqui para explicar o que é isso. No meio equestre, é muito comum o julgamento raso de que "qualquer cólica é fruto de erro de manejo ou alimentação ruim". Não foi o caso. O ceco do Zumbi, que é uma grande câmara de fermentação do intestino, simplesmente parou de funcionar. Houve uma falha orgânica de motilidade: o órgão parou de se contrair, fazendo com que o conteúdo líquido ficasse estagnado e fermentasse de forma desregulada, gerando uma acidez extrema. Não foi um erro nosso; foi uma fatalidade silenciosa do organismo dele.
Aquele susto na mesa de cirurgia abriu um abismo da noite para o dia, dando início a uma maratona implacável de testes, angústias e aprendizados que mudaram para sempre a nossa forma de enxergar a lida e o verdadeiro significado de cuidar de um cavalo.
Fotos do Zumbi no hospital antes e depois da cirugia.
Fotos do Zumbi em casa em recuperação da cirurgia em Itatiba
A Batalha dos Bastidores e a Realidade Cruel
A recuperação do Zumbi não foi uma linha reta. Em janeiro e fevereiro, um momento de descuido — quando a Zoeira pulou a cerca e ele acabou a cobrindo — gerou um estresse físico e hormonal que foi a gota d'água para descompensar o trato intestinal dele, levando a uma nova compactação, desta vez sólida, somada ao fantasma do melanoma.
Zumbi sendo cuidado da compactação após cobrir Zoeira no hospital.
Foi aí que conhecemos a face mais fria de alguns bastidores. Logo no primeiro dia em que o Zumbi chegou ao novo local em Atibaia, recém-saído do hospital, ele foi deixado em um piquete sem água por quem não sabia como lidar com um cavalo crítico, o que acabou desencadeando essa nova compactação. Chamamos um veterinário indicado pelo próprio local, mas o profissional estava totalmente perdido e não sabia o que fazer para salvá-lo. Foi preciso entrar em contato urgente com a Dra. Santina, que, mesmo à distância e por telefone, começou a nos orientar e a guiar o veterinário sobre o que fazer, salvando a vida do Zumbi.
O choque foi ainda maior quando vimos que esse mesmo profissional, que passou horas lá sem saber o que fazer, apresentou depois uma conta mais alta do que a de uma semana inteira de internação hospitalar de alta complexidade. Viver aquilo foi duríssimo.
Zumbi no primeiro local em Atibaia
O Ciclo da Vida: A Dor, o Luto e a Esperança
Foi nesse mesmo período que enfrentamos perdas e dores imensas no local. Primeiro, a morte do querido Fleet, um cavalo extraordinário que adotamos do Jóquei, que teve uma vida linda ensinando e dando aula para tanta gente, e cuja falta é sentida por todos nós na Troá até hoje. Pouco depois, sofremos com o aborto da Touriga, que esperava mais um filho do Zumbi — uma perda marcada pela revolta do descaso: o pessoal do local não deu a menor importância e nem sequer nos avisou quando aconteceu. Chegamos cedo e vimos o problema por conta própria, enquanto quem estava lá morando, tomando conta 24 horas (inclusive por câmeras às quais nós sequer tínhamos acesso), foi totalmente incapaz de nos avisar que a égua estava passando mal e precisava de ajuda.
Pouco antes de tudo isso, tínhamos vivido também a dor dilacerante da perda do pequeno Vivaldi, que era o primeiro filho do Zumbi a nascer. Ele foi vítima de um problema no mesentério: ver um potrinho partir tão cedo, depois de ouvirmos que "não era nada", e vê-lo morrer na frente de sua mãe, a Riana, foi devastador. Mas a natureza nos ensinou uma lição dura e rápida: a Riana processou o luto com uma sabedoria que nós, humanos, mal conseguimos compreender.
E, como a vida insiste em florescer onde há amor, a chegada do Xamego — exatamente um mês após a cirurgia do Zumbi — teve um peso ainda maior. Ele nasceu lutando de uma forma muito bonita: teve que ir imediatamente para o hospital porque a égua não tinha leite, exigindo cuidados intensivos para que ela pudesse produzir e para que ele sobrevivesse ao seu primeiro momento de vida. Hoje, forte e muito bem, o Xamego se tornou o único filho do Zumbi vivo, o nosso sopro de esperança e uma âncora de alegria. E, para nossa alegria, agora também aguardamos a chegada do filho da Zoeira com ele — um presente que não foi planejado, mas que virá, se Deus quiser, com muita saúde para somar a essa história.
Primeiro dia de Vida do Xamego She-Zun TL
A Virada para o Nosso Porto Seguro
Logo depois, mudamos para o segundo local dentro de Atibaia. E foi justamente nesse segundo local que enfrentamos mais um momento limite: o Zumbi passou uma semana inteira em crise de cólica, muito debilitado, exigindo cuidados diretos e intensivos nossos e dos veterinários. E, mesmo vendo ele nessa situação de luta pela vida, as pessoas desse segundo local diziam que era um absurdo nós mostrarmos o Zumbi, que era inadmissível ter um cavalo naquele estado e que nós deveríamos ter vergonha.

Zumbi pastando no segundo local em Atibia
Diante de tudo o que aconteceu, tomamos a decisão de trazer todos de vez para a nossa casa. Em tempo recorde, estruturamos a nossa chácara. Em apenas uma semana, construímos a infraestrutura necessária — incluindo a hípica — para poder cuidar do Zumbi de perto e devolver aos outros cavalos o manejo, o esporte e a vida boa que sempre tiveram.
A nossa casa sempre foi um porto seguro de alegria, festas e energia fantástica. Hoje, ver esse espaço se transformar no porto seguro deles é a maior recompensa. Mesmo em um espaço menor, a saúde física e mental de todos deu um salto: a escolinha, a doma e o esporte voltaram a fluir com força total.
E o Zumbi... Ah, o Zumbi. Quem olha para um cavalo em recuperação com julgamento raso não entende nada de honra. Nós nunca tivemos vergonha; tivemos orgulho. Orgulho de cada uma das nossas noites em claro, dos enemas que aprendemos a fazer com as próprias mãos, e de ver que ele já recuperou cerca de 150 kg, reconquistando sua beleza e dignidade. As pessoas que julgaram e não souberam respeitar esse processo simplesmente não faziam ideia do que é o verdadeiro amor pela lida.

Zumbi, finalmente se recuperando na Coudelaria TL
A Regra Que o Amor Quebrou
Hoje, o Zumbi requer cuidados diários rigorosos: atenção redobrada à hidratação, uso de omeprazol, controle de pequenos desconfortos e muita observação. Mas ver ele pastando calmo, forte e relinchando para as éguas nos dá a medida exata do que importa.
Mais do que isso, o Zumbi nos presenteou com algo que nenhuma literatura veterinária descreve: a convivência incondicional com o Xamego. Um garanhão que nunca permitiu que nenhum outro cavalo se aproximasse hoje divide a baia e o piquete em total harmonia com seu filho, comendo feno lado a lado, de uma forma que nunca vimos em livro algum.
Zumbi que recuperou 200kgs em 60 dias, com Xamego, só curtindo, comendo e pastando - Coudelaria TL
Gratidão a Quem Caminha ao Nosso Lado
Uma jornada como essa não se vence sozinha. Por isso, fica aqui o nosso agradecimento profundo e eterno a todos os médicos veterinários e à equipe do hospital que realizaram a cirurgia do Zumbi há um ano, salvando sua vida na hora mais crítica.
Um agradecimento muito especial aos nossos parceiros diários e incansáveis nessa batalha, Dr. Caio e Dra. Zenaide, que enfrentam tudo ao nosso lado com garra, força e sensibilidade, nos ajudando a compreender e a lutar da forma correta por ele a cada dia.
E à Dra. Santina, que mesmo de longe continua nos estendendo a mão e prestando um apoio inestimável sempre que precisamos. Você é uma pessoa extraordinária e merece todo o nosso reconhecimento, tanto em nome do Zumbi quanto de toda a família Troá.
O Zumbi está vivo, está bem e continua sendo o nosso grande guerreiro. Olhar pela janela hoje e vê-lo pastando livre na nossa casa é a prova definitiva de que o amor, a resiliência e a verdade sempre vencem. Que venham muitos mais dias assim.

