O seu cavalo é tratado ou torturado?

Prepare-se. Essa matéria vai doer, vai te parecer um coice na cara. Mas alguém precisa falar.
A gente chegou num ponto em que o manejo equestre perdeu totalmente o rumo. Tem picadeiro por aí que virou um verdadeiro hospício de aparências, onde o cavalo deixou de ser animal para virar boneca de porcelana de dono bitolado. O nível de loucura é tanto que já se vê tratador sendo obrigado a usar lencinho umedecido no ânus do cavalo logo depois que o animal defeca. Não pode ter uma poeirinha, uma sujeirinha sequer. O bicho reluz de tanto brilho e perfume.
A Neblina Tóxica da Baia e a Violência do Manejo
Enquanto gastam horas obcecadas escovando o pelo, o tratamento dado ao cavalo na hora da limpeza da baia é de uma crueldade revoltante. Em vez de retirar o animal para um ambiente seguro, o tratador simplesmente faz a limpeza com o cavalo trancado lá dentro. O bicho é obrigado a respirar todo aquele pó denso da serragem velha misturado diretamente com a amônia tóxica liberada pela ureia acumulada.
Para piorar, como o espaço é apertado e o animal está no caminho, é comum ver tratadores tocando o cavalo de forma grosseira e agressiva, balançando chapéu na cara do bicho ou enfiando o garfo de limpeza para lá e para cá para fazê-lo desviar. São raríssimos os profissionais que conseguem manejar uma limpeza com o cavalo confinado na baia sem aterrorizar o animal e jogar o nível de estresse dele lá no alto. É o retrato perfeito da hipocrisia: perfume no lombo e gás tóxico no pulmão.
O Abismo da Mão de Obra e a Distância do Dono
O grande problema por trás dessa neurose toda passa por uma realidade que poucos têm coragem de encarar. No Brasil, ainda temos a figura do tratador — uma mão de obra que, embora cada vez mais escassa, existe. Mas o que acontece nas grandes potências da equitação mundial, como na Europa e nos Estados Unidos? Lá, essa figura do tratador de baia quase não existe no dia a dia do cavaleiro comum; são os próprios cavaleiros e amazonas que arregaçam as mangas, limpam, escovam, cuidam e entram em contato direto com a realidade do animal.
Aqui no Brasil, infelizmente, o proprietário virou um mero espectador elitista que terceiriza tudo e perdeu o vínculo com o manejo real. É justamente essa distância confortável que alimenta tanta maluquice: como o dono não limpa a baia, não escova a lama e não sente o cansaço do bicho na própria pele, ele acha que cavalo é enfeite de prateleira e acaba inventando caprichos absurdos e cruéis para compensar a própria ignorância.
A Prisão da Aparência e a Proibição da Sujeira
O pior de toda essa neurose estética não é só o absurdo dos cosméticos; é o confinamento. Em nome desse falso cuidado, cavalos estão sendo impedidos de sair para o piquete. Se a justificativa para não soltar o animal fosse o excesso de moscas ou um risco real à saúde, faria sentido. Mas deixar de soltar o cavalo só porque ele vai se sujar é o cúmulo do absurdo.
Na natureza, o cavalo estaria solto. Ele deitaria na terra, ele se sujaria, e ele lidaria perfeitamente bem com isso. Faz parte do instinto e da sabedoria da espécie: o cavalo sabe muito bem o que pode e o que não pode fazer. Se o chão oferece algum perigo real, ele mesmo avalia e evita. Arrancar esse direito básico de liberdade porque o dono não quer ter o trabalho de escovar a lama depois é de um egoísmo sem tamanho.
Horas a fio preso em uma baia escura ou semi-isolada, o cavalo é transformado em refém dessa rotina de escovação infinita que o priva do que lhe é mais caro: a vida em comunidade e a liberdade de sentidos. Enquanto o tratador perfuma o animal, ele é impedido de socializar com outros cavalos, de trocar o bom e velho carinho de focinho. Mais do que isso: ele fica sem poder contemplar o horizonte. Para um animal de pradaria, cujos olhos foram feitos para vigiar o vasto horizonte, essa clausura forçada gera estresse crônico, ansiedade e frustração que nenhum vidro de perfume consegue disfarçar.

A Tortura da Assepsia e a Violência da Natureza
Essa obsessão doentia por assepsia não é carinho; é agressão disfarçada de capricho. Quando você esfrega o cavalo à exaustão, remove a capa de gordura natural e a poeira que protegem a pele dele, você está destruindo as defesas biológicas do bicho.
É óbvio que o cavalo precisa de higiene, mas ele não é um ser humano. A natureza do cavalo é ser cavalo: é viver solto, é deitar na lama, rolar na terra, entrar na água, pegar poeira e suar. Isso faz parte da saúde mental e física dele. Tentar transformar um animal de 500 quilos num bibelô intocável é arrancar dele a sua essência.
Onde foram parar as Cinco Liberdades oficiais do bem-estar animal?
Livres de fome e sede.
Livres de desconforto.
Livres de dor, ferimentos e doenças.
Livres para expressar seu comportamento natural.
Livres de medo e de angústia.
Cavalo Não é Carrossel: O Respeito ao Limite Físico
E para coroar a falta de noção, tem a turma que acha que cavalo próprio é sinônimo de utilitário de festa e parque de diversões. A gente vê dono promovendo verdadeiro revezamento, achando que o animal é um "cavalo de passeio" multiuso que serve para a família inteira subir em cima, dar voltas e mais voltas, e ainda aguentar o dono sair para cavalgar depois. E essa mentalidade de máquina de exploração se espalha pelas escolinhas de equitação e centros de equoterapia, onde o bicho trabalha o dia inteiro, emendando uma aula atrás da outra, sem sequer ter permissão para tomar água e se hidratar. O animal aguenta sequências intermináveis de alunos — muitos deles sem nenhuma técnica, "macetando" e despencando o peso sobre a coluna do bicho sem dó.
Cabecinha oca esquece que cavalo não é carrossel. O animal tem limite, tem uma estrutura musculoesquelética complexa, tem idade e um condicionamento físico específico que deve ser rigorosamente respeitado. O exercício exigido tem que estar estritamente alinhado com o preparo e a capacidade de suporte muscular do bicho naquele momento. Tratar o animal como se fosse indestrutível só resulta em lesões, desgaste precoce e dor crônica.
A Farsa das Embocaduras Malucas e os Falsos Atalhos
O absurdo mais revoltante é ver essa mesma turma que não tolera uma manchinha de poeira no pelo do cavalo na hora de montar praticar verdadeiros atos de barbaridade. A justificativa para a incompetência técnica na hora de conduzir o animal? Embocaduras cada vez mais pesadas, agressivas e inventadas.
Vem o "especialista" e inventa combinações dignas de filme de terror, como colocar um bridão de argola (geralmente articulado ou biarticulado) bem atrás de um bridão Pelham (que costuma ser reto e rígido). O resultado dessa genialidade macabra? A articulação do bridão de argola vai bater bem em cima do Pelham, e pode, inclusive, beliscar a língua e o palato do cavalo, causando sofrimento intenso, gerando dor severa e abrindo caminho para lesões e doenças na boca do animal. Detalhe, no Adestramento Clássico, também conhecido como Dressage, em séries mais avançadas é usado o conjunto freio-bridão, sendo que o freio sempre é colocado na boca do cavalo atrás do bridão para que o bridão não bata no freio e vice-versa.
Na mesma linha de ilusão, tem gente achando que vai resolver o problema fugindo do metal e correndo para o outro extremo sem preparo. O tal do bitless — que é a montaria sem bridão ou freio, ou seja, absolutamente nada na boca do cavalo — é excelente quando fruto de uma boa equitação, mas muitos acabam caindo no conto do vigário achando que iniciante pode ir direto para o hackamore como se fosse inofensivo só por não ter ferro na boca. Vale lembrar que o hackamore é uma embocadura mecânica muito pesada, que exerce forte pressão sobre o focinho e a mandíbula, e só deve ser usado por cavaleiros experientes e com mãos extremamente educadas. O segredo nunca foi o atalho milagroso, mas sim usar o equipamento mais simples possível e ensinar a pessoa a ter uma equitação correta.
A Crise do Topo, o Vale-Tudo e o Reflexo nos Picadeiros
Não é de se espantar que o caos reine nos centros hípicos quando o reflexo lá de cima é de pura desolação. Estamos à beira de mais uma eleição na CBH estropiada por brigas internas e disputas de grupos pelo poder. Se os próprios governantes do esporte não se entendem e andam de costas para a verdadeira técnica, como é que uma profissão que sequer é regulamentada — como a de instrutor de equitação — vai poder crescer e ser respeitada?
Enquanto de um lado há profissionais sérios buscando formação profunda, estudo e ética para ensinar de verdade, do outro tem aventureiros se achando os "bambambans", ensinando de qualquer maneira. E para piorar, muitos instrutores mais antigos, cansados do "mimimi" e incapazes de se reciclar com métodos modernos, acabam cedendo a essas modinhas cruéis e adotando embocaduras malucas só para sobreviver no mercado e agradar cliente sem noção.
Uma equitação de verdade respeita a hierarquia sagrada das ajudas: primeiro a intenção (o pensamento), depois o assento, a perna, e só por último — se é que precisa — a mão. Já existem estudos e observações mostrando que um cavalo saltando só de cordeo tem uma mecânica e uma movimentação lindíssima, muito próxima de um salto em liberdade. Mas aí bate a realidade com força: com a equitação porca e amadora que predomina nos picadeiros hoje em dia, como é que essa gente vai acompanhar o movimento sem saber virar um cavalo, sem usar o peso do próprio corpo no assento e sem firmeza de perna?
Passou da hora de dar um basta em tudo isso: parar com a frescura do lencinho umedecido, tirar o animal da baia na hora de limpar o estrume, respeitar os limites físicos do bicho, garantir água e proteção à coluna nas escolinhas, soltar o animal no piquete para ver o horizonte (mesmo que ele se suje inteiro) e resgatar o básico: deixar o cavalo ser cavalo, e ensinar o instrutor e o cavaleiro a trabalharem com dignidade.


