Até que ponto a alta performance é aceitável? O limite invisível entre o treino e o abuso. O Limbo das Denúncias no Treinamento Equestre

Nota Editorial: Este artigo reflete um manifesto puramente técnico e educativo baseado na filosofia de trabalho da Troá Equitação Ética. Os relatos de manejo e bastidores aqui apresentados ilustram desafios estruturais e culturais crônicos do mercado equestre nacional, vivenciados de forma ampla pelo setor. Este texto não possui o objetivo, o intuito ou a capacidade de apontar, expor, difamar ou caluniar nenhum profissional, estabelecimento, marca ou centro de treinamento específico. O compromisso desta publicação é estritamente com o debate técnico sobre o bem-estar animal e o cumprimento das normativas vigentes dos órgãos reguladores.
Para nós da Troá, este tem sido um período de profundas reflexões e grandes desafios. Sempre pautamos nosso trabalho no respeito absoluto ao cavalo, mas o que frequentemente se testemunha nos bastidores do meio equestre nacional revela um choque de realidade difícil de digerir para quem busca a equitação ética.
Nossa jornada recente nos colocou diante de cenários complexos de manejo que prejudicaram a rotina e a estabilidade da nossa tropa. Passamos por experiências em que as condições físicas do ambiente — como áreas expostas a inundações e excesso de barro — comprometeram o padrão sanitário que exigimos para a saúde dos animais. Diante da necessidade de preservar o bem-estar deles, buscamos novas alternativas de espaço.
No entanto, a mudança para estruturas voltadas a modalidades de velocidade e trabalho nos confrontou com outra realidade comum no mercado: a ausência de manejo sanitário básico e a falta de conformidade com as diretrizes de descarte de resíduos. Em uma dessas vivências, deparamo-nos com a instalação inadequada de esterqueiras em proximidade prejudicial às baias, criando um ambiente insalubre. A tentativa de estabelecer um diálogo técnico e construtivo baseado nas regras sanitárias oficiais do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) foi recebida com resistência institucional, resultando em uma desocupação imediata e compulsória das instalações, sem o tempo hábil necessário para uma transição planejada para a nossa tropa.
Essa urgência forçada nos colocou em uma situação extrema de logística. Em pral do bem-estar coletivo e para garantir que as exigências de espaço e dignidade fossem mantidas, fomos obrigados a tomar a dolorosa decisão de reduzir nosso plantel, abrindo mão de alguns animais da nossa tropa para assegurar que tanto os que saíram quanto os que ficaram tivessem suas necessidades plenamente atendidas. Essa peregrinação, que nos levou ao terceiro endereço em menos de um ano, evidencia um problema muito maior e estritamente técnico: a resistência cultural de setores do mercado em aceitar as regulamentações vigentes.
O conhecimento técnico e a legislação existem e estão acessíveis, mas há uma soberba estrutural que blinda muitos espaços contra a evolução do manejo. Para além disso, o ambiente equestre tradicional ainda carrega traços severos de machismo e misoginia. Quando profissionais mulheres assumem o protagonismo técnico para exigir o cumprimento de normas científicas, sanitárias e de bem-estar, seus argumentos são frequentemente desvalidados ou recebidos com tom impositivo por uma cultura retrógrada que se recusa a modernizar seus processos.
O reflexo visível dessa combinação entre a rejeição às normas técnicas e a insistência em métodos arcaicos manifesta-se diretamente nas pistas de treino. Um exemplo claro dessa conduta pode ser observado de forma genérica no arquivo 1000429117.mp4, que ilustra práticas rotineiras de treinamento de alta performance. No vídeo, após o cavalo expressar desconforto ao empinar, aplica-se uma "correção" baseada em esporadas contundentes e fortes puxões na boca do animal — uma abordagem agressiva disfarçada de técnica de correção que se mostra inaceitável em pleno ano de 2026.
O Erro Técnico da Violência e a Falta de Planejamento
O comportamento de empinar é, na esmagadora maioria das vezes, um reflexo de dor, desconforto, frustração ou pura incompreensão dos comandos. Responder a isso com violência física não ensina o cavalo; apenas o submete pelo medo e pelo estresse.
Para além da agressão visível a olho nu no arquivo 1000429117.mp4, existe um problema estrutural silencioso: a falta de estudo no treinamento diário. Um bom profissional precisa ter entendimento profundo sobre a periodicidade e a progressão do treinamento. A alta performance legítima é construída de forma gradual, respeitando o tempo de desenvolvimento muscular, tendíneo e mental do animal.
O Alerta Vermelho: Fármacos Mascarando a Dor e o Doping Invisível
Quando a preparação diária e o manejo ambiental são negligenciados, o corpo do cavalo cobra o preço. Um dos sinais mais claros de que um sistema está falido é quando se entra em um centro de treinamento — seja de Três Tambores, Laço, Salto ou Adestramento — e percebe-se a dependência crônica de substâncias para manter os animais em pista.
O uso corriqueiro de anti-inflamatórios potentes, fármacos de uso restrito e coquetéis analgésicos, aplicados de forma contínua apenas para mitigar as dores crônicas nas patas e articulações, é o atestado definitivo de um erro grave. Pior do que o uso indiscriminado dessas substâncias é a estratégia deliberada por trás de sua escolha: muitos desses compostos são utilizados especificamente por não serem detectados nos exames tradicionais de doping.
Existe uma parcela de profissionais que estuda as brechas das testagens para dopar os animais de forma invisível. Eles manipulam substâncias que mascaram a dor de lesões estruturais severas, permitindo que o cavalo compita no limite de sua integridade física sem que o painel de dopagem acuse a fraude. Se o protocolo de treinamento exige o uso de artifícios químicos camuflados para que o cavalo consiga trabalhar, esse animal claramente não está preparado para aquela performance e está sendo submetido a maus-tratos silenciosos.
O conjunto ideal para a alta performance exige que o animal goste do que faz e esteja confortável — e isso é biologicamente impossível se ele estiver sentindo dor mascarada por química.
O Radicalismo dos Extremos
Essa insistência em métodos arcaicos, o abuso farmacológico camuflado e a insalubridade dos ambientes acabam alimentando o discurso dos abolicionistas — aqueles que defendem o fim completo de qualquer modalidade esportiva com cavalos. Diante de abusos físicos, esterqueiras insalubres e do uso abusivo de substâncias para camuflar lesões, fica difícil tirar a razão deles. Se a comunidade equestre não for capaz de se autorregular, extirpar a violência e exigir rigor técnico na preparação e no manejo dos cavalos, o próprio futuro das competições estará sob séria ameaça.
O caminho não é o banimento das pistas, mas sim a conscientização e a aplicação rigorosa da Equitação Ética, onde a saúde do atleta equestre vem sempre antes do troféu.
O Limbo Institucional: Para Quem Denunciar?
Se a urgência de mudar é clara, o caminho prático para quem presencia esses abusos — tanto físicos quanto de manejo ou dopagem — é um labirinto frustrante. O maior gargalo hoje reside na impunidade gerada pela falta de jurisdição e preparo dos órgãos competentes:
As Federações e a CBH: Embora modalidades como os Três Tambores estejam sob o guarda-chuva de entidades oficiais, a resposta padrão para abusos ocorridos fora das pistas de competição é o silêncio. Tanto a Confederação quanto as federações estaduais costumam alegar que, por não ser um ambiente de prova oficial (e sim um centro de treinamento privado), elas não têm poder de atuação ou punição.
A Polícia e as Autoridades Judiciais: Quando a denúncia é levada à polícia, o cenário raramente melhora. Na maioria das vezes, os agentes de segurança não possuem o conhecimento técnico necessário para interpretar o que constitui uma rotina de treinamento severa ou abusiva versus o que é categoricamente "maus-tratos" pela lei. Sem essa capacidade de interpretação técnica, muitas denúncias graves acabam arquivadas.
O Futuro Exige Mudança
A busca por excelência e evolução técnica não pode camuflar o inaceitável nem acobertar trapaças químicas. O meio equestre precisa evoluir urgentemente na valorização do conhecimento técnico real (estudo de fisiologia, periodização e anatomia) e no combate à impunidade, à dopagem planejada e ao preconceito, criando canais de fiscalização capazes de coibir tanto o abuso animal quanto o comportamento misógino nas cocheiras.
A alta performance legítima gera admiração pela harmonia do conjunto; o uso da força, o artifício do doping invisível, a soberba diante das normas técnicas e a negligência com a saúde animal geram apenas repúdio. O futuro do esporte depende da nossa coragem coletiva de expor o erro sistêmico e exigir que o bem-estar do cavalo seja a prioridade absoluta.
