Treinando Cavalos

02/02/2014 22:48

Treinando Cavalos

Treinar  Cavalos

Treinar um cavalo para qualquer modalidade que seja é sempre um árduo caminho. Há muitas teorias, muitas experiências, mas na verdade, sempre há uma dúvida: qual caminho pegar?

Os grandes mestres de equitação dizem que só há um caminho: o caminho do entrosamento e do equilíbrio! Com isso eles criaram há séculos atrás a Escala de Treinamento.

A Escala de Treinamento pode ser desenhada da seguinte maneira:

 

 

Esta escala mostra um plano a se seguir com o cavalo, seja ele novo ou já treinado, para chegar a reunião e então poder competir. Ela dá um Norte.

A escada possui 6 degraus, abaixo descritos:

 

1.)  Ritmo / Cadencia / Regularidade

 

O primeiro degrau fala sobre Ritmo / Cadência / Regularidade. Aqui é onde começa o desafio do Dressage, seja para Adestramento, Salto ou qualquer outra modalidade. Este degrau implica em fazer o cavalo andar em todas as suas andaduras (passo, trote e galope) com ritmo, vontade de ir para frente,  e relaxado tanto mentalmente como psicologicamente. É a faze que muitos chamam de: Cavalo para frente e para Baixo.

Mas só para frente e para baixo não é o suficiente para se passar para a próxima fase.

Uma dos quesitos mais importantes para se ter o cavalo por muitos anos competindo, dando o melhor de si, sendo o melhor que ele pode ser, é manter seu equilíbrio correto.

Naturalmente, os cavalos possuem seu equilíbrio corporal entre as mãos e o pescoço. Isso é facilmente observado quando vemos o cavalo pastando, seja escolhendo o que comer, ou comendo alguma coisa.

Dentro da equitação tradicional o equilíbrio do cavalo, nesta primeira fase deve ser deslocado um pouco mais para traz, ficando um pouco atrás de suas mãos, no centro de seu corpo, conforme mostrado na figura abaixo:

Com o equilíbrio correto a meta é qualidade dos andamentos naturais do cavalo.  Esta qualidade é resultado da movimentação solta, fluência e espontaneidade.

Neste primeiro degrau da Escala, o cavalo deve ter andamentos bem marcados, ritmados, de acordo com as batidas que definem cada um deles: quatro batidas no passo, duas no trote e três (alguns autores definem quatro) para o galope.

Após conseguirmos manter o cavalo em equilíbrio é que vamos para o próximo degrau.

 

2.)  Descontração / Flexibilidade / Fluência

 

Qualquer cavalo de trabalho é acima de tudo, um atleta. E como qualquer atleta tem que desenvolver sua flexibilidade. Mas é necessário lembrarmos de um ponto importantíssimo: O círculo, a flexão e a encurvatura são pontos cruciais para equinos. Quando soltos em liberdade, nunca vemos potros andando em círculos.

É neste degrau que devemos pensar em equilíbrio correto, com encurvatura, desenvolvimento da flexibilidade e fluência dos andamentos. O equilíbrio deve estar novamente abaixo do cavaleiro:    

Nesta fase é muito importante saber qual é a assimetria natural de nosso cavalo, sabendo qual a musculatura que deve ser mais desenvolvida, flexionada, alongada, contraída e fortalecida.

A descontração é o que irá trazer vida longa ao cavalo. Cavalos que tem um lado mais difícil que o outro precisam retornar a este pondo na escala de treinamento para desenvolver ambos seus lados de forma a ficarem iguais e o mesmo conseguir desenvolver seus exercícios da melhor forma que cada um pode fazer.

Quando um cavalo está descontraído, fica feliz, se move com facilidade, suavidade, masca suavemente a embocadura e, muitas vezes, balança a cauda no ritmo da andadura.

 

3.)  Contato / Conexão

 

Aquele que pensa que contato está ligado ao contato da boca do cavalo com a mão do cavaleiro através das rédeas, está redondamente engando.

Contato é um conceito que pode ser definido pelo perfeito entrosamento, atendimento e entendimento das ajudas do cavaleiro pelo cavalo. Sabe quando pensamos em galopar e de repente o cavalo está galopando? Então, isso acontece porque há harmonia e o cavalo entendeu e aceitou as ajudas sutis que o cavaleiro pediu.

A conexão entre cavalo e cavaleiro se dá pelas formas que estas ajudas são dadas.

Muitas pessoas pensam que um cavalo engajado deve ser impulsionado contra a mão do cavaleiro, formando um “paredão” na frente do cavalo. Este conceito também não é o conceito descrito pelos grandes mestres.

“Quando você souber o que quer, o cavalo fará” – Dominique Barbier

Esta frase explica exatamente o que é contato e conexão, outra frase de Dominique Barbier que a explica bem é: “Faça menos para obter mais”.

Aqui mais uma vez precisamos pensar em equilíbrio e não em força.

Muitos cavalos possuem muita dificuldade de ligar a garupa ao pescoço. É nesta faze que precisamos estabelecer esta conexão entre a garupa e o resto do corpo do equino.

Então com contato leve, mentalizando o que e como queremos pedimos os movimentos laterais como espádua a dentro e garupa a dentro para colocarmos o equilíbrio em seu local de direito e conectar a garupa, o dorso e o pescoço do cavalo:

 

                                                   

 

Para ter um contato leve, correto, o cavaleiro nunca deve ter mãos pesadas, ou puxá-las em direção a si ou na direção para cima, bem como todo movimento de quadril deve ser feito de traz para frente e as pernas devem estar devidamente colocadas, porém serem leves também. Para pedir algo ao cavalo temos que pensar e nos conectar com ele para termos o resultado de um cavalo feliz e leve que agrada a todos, incluindo cavalo e cavaleiro. A conexão deve ser estabelecida de forma que o cavalo e cavaleiro formem um só corpo e se transforme no tão sonhado centauro.

 

4.)  Impulsão

 

Muitos autores, instrutores e interessados conceituam impulsão como o resultado direto da energia criada pelas ajudas do cavaleiro.

Impulsão na verdade é a vontade que o cavalo expressa em andar. É fácil de ser entendida. Quando estamos olhando pessoas andando na rua e nos deparamos com uma olhando para o chão, andando com as mãos no bolso, com os olhos caídos sempre dizemos: puxa aquela pessoa está triste, ou cansada. Mas quando vemos uma criança andando de mãos dados com a mãe, pulando, olhando, agitada dizemos: Puxa como ela está feliz. Isso quer dizer que um cavalo impulsionado é como a criança do exemplo acima.

Quando montamos queremos sempre ser centauros. Na verdade queremos formar um só conjunto, queremos ser harmoniosos, queremos ser lindos. Para isso temos que estamos dançando. Por isso muitos mestres e instrutores dizem que no adestramento temos sempre que perguntar ao cavalo: Quer dançar comigo?

A impulsão é a resposta sim do cavalo ao cavaleiro. O cavalo sempre deve estar apto para dançar com a gente, e claro estar no ritmo da música. Impulsão é, portanto, o nível de energia em nossa mente que passamos ao cavalo.

Devemos obter a impulsão, imaginando-nos dançando em pleno ar. A regra de ouro é ter o mínimo de impulsão necessário para o movimento que se quer realizar, em total relaxamento. Afinal até mesmo um passo com rédeas soltas tem que ter impulsão. A impulsão não é muita velocidade e correria em uma posição contraída.

Devemos ter uma impulsão controlável, vinda de um cavalo consciente, que se comunica com o seu cavaleiro, que seja suficiente para, primeiro manter a posição correta com relaxamento, e em seguida seu movimento.

Porém deve-se tomar cuidado para se ter um equilíbrio correto entre impulsão e relaxamento. O cavalo não pode deixar de estar relaxado por causa da impulsão. E também não deve estar totalmente relaxado sem impulsão. Devemos dar ao cavalo a impulsão suficiente para mantê-lo na mão.  O nosso assento é a torneira por onde flui a impulsão. Sempre buscamos ter impulsão, pouca mão e pouca perna.

O cavalo está feliz quando encontramos o equilíbrio entre reunião, equilíbrio corporal do cavalo, impulsão e relaxamento.

 

5.)  Retidão

A retidão de um cavalo é conseguida através do equilíbrio correto. Isso significa que o equilibro do cavalo deve estar no local correto. Na época de Baucher, em emados do século XIX, equilíbrio era sinônimo de centro de gravidade. Baucher dizia que, quando a sensação parece correta, é porque está correta.

Naturalmente cavalos são destros e canhotos como nós. Ao treinarmos cavalos, precisamos em um primeiro momento analisar as características físicas de nosso companheiro. Então temos que pensar que sempre há um lado mais fácil e outro mais difícil. Há um lado em que toda a musculatura do cavalo é mais encurtada e do outro lado é mais alongada.

Para conseguirmos retidão precisamos manter os posteriores do cavalo seguindo a mesma linha dos anteriores, e seu corpo paralelo à direção do movimento.

Para isso é preciso realizar muita ginástica e um trabalho focado no equilíbrio do cavalo. Devemos ensinar ao cavalo a encontrara seu equilíbrio e, se manter nele antes de ser montado através de trabalho como: trabalho de guia, trabalho de chão, também chamado a vara, trabalho a mão, entre outros.

A retidão é de suma importância no desenvolvimento do cavalo, pois permite que seu peso seja distribuído igualmente para ambos os lados, que o cavalo empurre-se com os posteriores equilibradamente, e para atingir a reunião, uma vez que essa depende do deslocamento do centro de gravidade para trás.

 

6.)  Reunião

No topo da pirâmide jaz a síntese de todos os estágios anteriores, e o objetivo final do adestramento: a reunião. Esta envolve o “abaixamento” da garupa, levantamento – e leveza – da frente, passadas mais curtas e alçadas. Os posteriores passam a mover-se bem abaixo do corpo do cavalo, para sustentar o levantamento da frente. A consequência natural é uma mudança do centro de gravidade do cavalo, à qual ele deve responder com perfeito equilíbrio. É na reunião que a auto sustentação do cavalo fica mais evidente e, através dela, todos os andamentos são aperfeiçoados. A reunião é preponderante na realização de movimentos de alto grau de dificuldade, como mudanças de pé ao galope e piruetas. Requer grande força muscular, daí a importância de desenvolver um trabalho escalonado com seu cavalo antes de tentar obtê-la.

 

 

Na Escala original, utiliza-se a palavra “durchlässigkeit”: o fluxo de energia e das ajudas do cavaleiro através do cavalo, da frente para trás e de trás para frente ou, em tradução direta, “permeabilidade”. Em outras palavras, o cavalo deve estar “permeável”, disponível a responder às ajudas com ritmo, descontração, contato, impulsão, retidão, e deve ser capaz de atingir a reunião, num movimento cíclico de energia, que influencia todo o trabalho. Assim, é a finalidade de todo o treinamento, e deve ser encarada como tal.

A reunião não é, como muitos pensam, apenas um exercício que acontece ou tem inicio a partir de certo grau competitivo. A reunião é o mais importante objetivo de um programa de treinamento. Reunir um cavalo, significa convidá-lo a encurtar seu padrão de movimentação, o que permite qu ele se desloque para frente, para trás, para os lado, e até para cima, no tempo mais otimizado possível.

A reunião é um mecanismo natural de defesa do cavalo. Ele se reúne e parte em direção oposta a qualquer perigo que o ameace.

Classicamente, a reunião é a característica da equitação de Alta Escola.

 

A Escala de Treinamento serve para formar cavalos de forma harmoniosa e gradual, visando conservar graça e atitudes e de movimentos que o cavalo apresenta naturalmente em liberdade. O trabalho harmonioso de todo cavalo exige:

  • método, ou seja, permeabilidade, cultura estética, ginástica contínua e progressiva;
  • desenvolvimento muscular harmonioso, ou seja, força, equilíbrio, elasticidade e equilíbrio mental;
  • movimentos expressivos e elegantes, carisma e comunicação imperceptível entre cavalo e cavaleiro.

 

As fases da Escala de Treinamento:

 

FASE 1: entendimento e confiança:

  • Regularidade
  • Flexibilidade
  • Contato

 

FASE 2: desenvolvimento do poder de impulsão:

  • Flexibilidade
  • Contato
  • Impulsão
  • Retidão

 

FASE 3: desenvolvimento da auto sustentação:

  • Impulsão
  • Retidão
  • Reunião

 

FASE 4: permeabilidade:

  • Reunião de todos os itens das fases anteriores
  • Pernas sem hesitação e resistência – mãos passivas e leves.

 

 Apesar de termos examinado a Escala de Treinamento com vistas ao Adestramento, ela pode – e deve – ser utilizada no treinamento de qualquer cavalo, para qualquer modalidade. Por privilegiar o trabalho analítico e progressivo, é a mais efetiva ferramenta disponível a cavaleiros e treinadores, para a formação e aperfeiçoamento do cavalo de esporte.

É importante ressaltar que ela orienta uma direção de treinamento. Só se deve passar para o degrau acima, quando estamos com o degrau atual totalmente bem executado e perfeito. Porém esta mudança muitas vezes acaba não sendo fácil e provoca que o conjunto se sinta um pouco perdido. Então é hora de voltar atrás, descer um degrau, arrumar “a casa” e então pedir o degrau superior de novo. Muitas vezes para subir um degrau, antes temos que descer dois. A constância, perseverança e atitude mental positiva sempre nos levará ao topo da Escala de Treinamento.

 

Boa sorte a todos!