Espádua a Dentro

18/05/2015 11:21

Espádua a Dentro - por Priscila Thomazelli

 

Hoje,  resolvemos falar sobre este exercício, chamado espádua a dentro, sendo o movimento lateral que é considerado por muitos Grandes Mestres como o exercício mais importante dentro do Adestramento Clássico. 

Este exercício consiste em fazer com que a espádua do cavalo (ombro) vire-se para o lado interno da pista (lado que dá para o centro da pista, oposto a cerca) e que o cavalo continue andando na direção da cerca, trabalhando desta forma a flexibilidade, o engajamento dos posteriores, desenvolvendo ainda o apoio e a retidão do cavalo. Deve ser executado ao passo e ao trote. Não deve ser executado ao galope porque nesta andadura o cavalo não tem como cruzar as mãos conforme solicitado neste exercício, porém pode ser usado como um menor ângulo, promovendo apenas o engajamento do posterior de forma a auxiliar o desenvolvimento dos demais movimentos laterais pedidos ao galope. Podemos visualizar este  exercício na figura ao lado:

 

A espádua a dentro é um movimento singular, criado por François Robichon de La Gueniere, que disse ser este o primeiro e o último movimento a ser ensinar a um cavalo. Antoine de Pluvinel também descreve a espádua a dentro, sendo executada através de um pilar um pouco antes de La Gueniere.

Estes grandes mestres observaram que para ter um cavalo obediente e elástico, a pedra fundamental era o trabalho ao trote. Porém o trote só produz, através de suas patas e espádua, movimentos para frente ao se mover em linha reta e um pouco de movimentos circulares ao se mover círculos, mas que infelizmente não ensinava o cavalo a cruzar as patas, como era necessário para saltar e transpor alguns obstáculos durante a cavalgada de seu cavaleiro.

Se pensarmos na biomecânica do cavalo temos que cavalos não possuem o osso clavicular, também conhecido como clavícula, que é o osso que conecta a espádua (o ombro do cavalo é chamado de espádua) ao resto do corpo.  Como o cavalo não tem esse osso conectando os ombros e seu corpo, as espáduas são constituídas por vários tendões, músculos e  ligamentos que exercem a função de ligar o “ombro” ao resto de seu corpo. Isso traz um problema, afinal todos sabemos, que quando temos um músculo do pescoço contraído (contratura muscular) e não fazemos nada para melhorar, em breve estaremos com um problema nas costas. Com os cavalos acontece a mesma coisa. Para resolver este problema é necessário realizar o exercício de espádua a dentro, pois ao cruzar as patas dianteiras (conhecidas como mãos) o cavalo terá a musculatura da espádua alongada e quando o cavalo afasta as mãos, a musculatura será contraída fazendo com que estas musculaturas, tendões e ligamentos sejam trabalhados de forma correta fazendo uma perfeita ligação entre espáduas e o corpo do animal. Portanto, este exercício trabalha tanto o alongamento como o fortalecimento da espádua, por consequência, do dorso e garupa do equino.

 

 

A importância deste exercício pode ser notada por inúmeras vezes ao longo da história, sendo que todos os Grandes Mestres falam a respeito deste movimento lateral:

“Nuno de Oliveira – Espádua a Dentro – nunca se deve subestimar a importância deste exercício para obter flexibilidade. É o mais importante de todos os exercícios laterais e não é suficientemente utilizado. O cavaleiro não deve pedir o espádua a dentro só ao longo dos lados mais compridos do picadeiro; deve manter o cavalo feliz e interessado na espádua a dentro em círculo, nos topos do picadeiro, em meios círculos e ao longo da linha central. Da espádua a dentro para o ladear e de volta a espádua a dentro, etc. Assim como a espádua a dentro em direção ao meio do picadeiro, deve-se praticar também  a espádua a dentro, cabeça a teia.  A espádua a dentro  é mais facilmente conseguida quando o peso do cavaleiro recai ligeiramente sobre o exterior e a perna exterior se encontra um pouco atrasada. Muitos cavaleiros são ensinados a colocar o peso sobre o interior do arreio mas em certos cavalos isso leva ao bloqueio do movimento lateral. Também acontece que muitos cavaleiros exigem demasiada encurvatura com a rédea interior, que se deve manter suave. Devem-se voltar as unhas da mão interna para cima e manter o contato com a rédea suave. É a mão externa que guia a parte anterior do corpo do cavalo para fora do alinhamento dos posteriores e que comanda o grau de encurvatura juntamente, como é óbvio, com a utilização correta da perna interna do cavaleiro que pede ao cavalo flexibilidade e encurvatura, junto a cilha.”

Pela escola acadêmica, a espádua a dentro é feita em 4 pistas. Isto significa que se olharmos o cavalo executando a espádua a dentro vindo em nossa direção, veremos que existem 4 linhas formadas pelas suas patas que tem a mesma distância entre ela, conforme mostrado abaixo:

Porém na atualidade este exercício é pedido em competições devendo ser realizado em 3 linhas, tendo seu posterior interno alinhado na mesma linha que seu anterior externo, conforme mostra figura abaixo:

 

Segundo a Federação Equestre Internacional (FEI) e a Confederação Brasileira de Hipismo (CBH), temos a espádua a dentro descrita em seus regulamentos como:

 “Artigo 142 - 5. Espádua para Dentro. Este exercício é executado ao trote reunido. O cavalo é conduzido com uma ligeira mas uniforme encurvação em torno da perna interna do cavaleiro, mantendo o engajamento e a cadência e, um ângulo constante de aproximadamente 30 graus. O anterior interno do cavalo passa e cruza a frente do anterior externo; as passadas do posterior interno movem-se para baixo do corpo do cavalo, seguindo a mesma pista do anterior externo, com o abaixamento de sua anca interna. O cavalo é encurvado para o lado contrário à direção de deslocamento."

No livro “The Complete Training of Horse and Rider In the Principles of Classical Horsemanship”, de Alois Podhajsky, que foi diretor, por 25 anos, da Escola de Viena, ele contesta a realização do exercício conforme hoje é preconizado nos regulamentos de competição, ou seja, em  três pistas: "Contrariando a teoria de La Guérenière, sustenta-se que a espádua para dentro deva ser executada num ângulo tal que o posterior interno siga a mesma trilha do anterior externo. Esta interpretação leva a uma configuração de espádua para dentro em que o anterior interno não cruza suficientemente sobre o externo. Neste caso, os objetivos do exercício - o fechamento das três articulações dos posteriores, a liberdade de movimento das espáduas, o desenvolvimento do contato com a embocadura e o aumento da flexibilidade e da obediência - não serão atingidos". E, para finalizar este artigo, uma outra lembrança, do próprio Podhajsky: "Ao praticar um trabalho lateral, o cavaleiro deve sempre ter em mente que são movimentos para a frente e para o lado. O movimento para o lado é facilmente obtido e percebido. O mais importante, entretanto, é manter o movimento para a frente constante e sob controle. O cavaleiro deve ter certeza que o cavalo, obediente às ajudas, move-se suficientemente para a frente. À menor percepção da perda de impulsão, o exercício deve ser interrompido com um movimento para a frente ou um círculo pequeno".

No livro “Adestramento para a Nova Era”, Dominique Barbier diz que: A espádua a dentro é um movimento diferente de todos os outros, muito fundamental e dinâmico, devido a sua adaptabilidade a diferentes cavalos, a espádua a dentro clássica é um movimento em quatro pistas, de modo a beneficiar o cavalo por inteiro, trabalhar em quatro pistas obriga o cavalo a utilizar mais o próprio corpo. Por ser um exercício de flexionamento, o treinador deve chegar ao limite do que o cavalo pode fazer, e então, cuidadosamente, pedir um pouco mais, para desenvolve-lo. Utilizo a espádua a dentro em três pistas muito raramente. Na maioria do tempo, é inútil e traz pouco beneficio ao cavalo, exceto quando este se encontra cronicamente rígido, e para quem isto é um começo no processo de melhora. Sempre digo que a espádua a dentro em três pistas é como tocar seu joelho cem vezes. Você não se tornará mais flexível. Para isso, você deve tocar o solo com as mãos, o que equivale a espádua a dentro em quatro pistas”.

 

Já Claudia Wolters diz que a espádua a dentro é importante por dois principais motivos:

  1. Em primeiro lugar, o exercicio aumenta a musculatura das espáduas, porque a mão dianteira interna cruza em cada passo pela frente da mão externa parando para descansar no outro lado da mão de fora, e ao mesmo tempo, obriga a espádua a seguir esse movimento, ativando os músculosdesta parte, o que já é aparente.
  2. A espádua a dentro prepara o cavalo para ser colocado sobre a sua garupa, porque a cada passo dado nesta posição, a pata traseirainterna move-se para frente e para dentro, indo abaixo da barriga e descansando em frente ao pé externo, o que só pode ser feito baixando a garupa: é, portanto, sempre um lado da garupa em uma direção, e o outro lado na outra direção, aprendendo, consequentemente a dobrar os seus jarretes sob si, é o que é chamado a ceder a garupa. 

	

A espádua a dentro é a uma das chaves do treinamento de equidade / retidão e que é usada para permitir que o cavalo se desenvolva simetricamente em corpo e membros. É um exercício de grande valor, porque ajuda a neutralizar a assimetria natural do cavalo, aumentando sua flexibilidade em ambos os lados, garante que suas patas traseiras (chamados de pés) aprendam a empurrar e transportar igualmente. Este movimento lateral ensina o cavalo a pisar com sua pata traseira interior dentro de seu centro de gravidade (posicionado logo abaixo da sela de seu cavaleiro, sendo conhecido também com o ponto de equilíbrio do cavalo), suportando assim um maior peso neste pé do que nos outros membros. Isso faz com que o cavalo tenha uma encurvatura maior com sua pata traseira interior. Em particular, o pé que é menos flexível se tornará mais flexível por realizar este exercício. Portanto o importante não é estar em 3 ou 4 pistas e sim estar com o pé interior pisando no centro de gravidade, tornando-o assim mais flexível.

Segundo La Gueniere cada cavalo tem um diferente grau de espádua a dentro e que, portanto esta tem que ser adaptada a cada cavalo, como exercício de flexibilidade, além de ser uma excelente ferramenta para restabelecer a comunicação entre cavalo e cavaleiro, quando surgir qualquer problema. O grau deste movimento diz respeito ao ângulo em relação ao movimento do cavalo, e aos diferentes graus de reunião. Na verdade o grau não está relacionado com a flexibilidade. Sempre devemos buscar o máximo de flexibilidade em cada grau. O grau diz respeito ao objetivo que buscamos realizar com este exercício. Por exemplo o grau e a reunião da espádua a dentro, objetivando uma melhora do alongamento é menor que o grau e a reunião do mesmo exercício objetivando um “piaffer” perfeito. Portanto temos sempre que praticar a espádua a dentro de competição (em 3 pistas) e usar este exercício para desenvolver os demais movimentos solicitados em nosso esporte. Um ponto importante a se lembrar é que, apesar do ângulo e da reunião da espádua a dentro solicitada, o cavaleiro deve sempre se lembrar que este é um movimento para frente e para o lado, e não somente para o lado.

Na verdade, a espádua a dentro serve para “arrumar / consertar” diversos outros movimentos como trote alongado, “piaffer”, retidão, reunião, etc. Quanto melhor e mais flexível for a espádua a dentro realizada, melhor será o “piaffe” e “passage” do cavalo.

Portanto a espádua a dentro traz como benefícios:

  •          Auxiliar a retidão de seu cavalo;
  •          Permite chegar a equidade de movimentos;
  •          Melhora a flexibilidade;
  •          Melhora o apoio;
  •          Melhora a musculatura do dorso;
  •          Trabalha a reunião, promovendo o “abaixamento” da garupa, e consequentemente uma maior liberdade dos anteriores;
  •          Desenvolve a impulsão; etc.

 

 É exatamente por ser usada para melhorar tanto o alongamento, como a flexibilidade é que a espádua a dentro é considerada como um dos exercícios mais importantes dentro do Adestramento Clássico.