Como devo montar meu cavalo?

18/07/2016 23:02

Como devo montar meu cavalo?

 Devo montar do chão, sempre do lado esquerdo, como se vê nos filmes ou devo usar algo para auxiliar?

 

Há muitos anos o cavalo vem sendo usado pelo homem, como já falei e escrevi em muitas matérias. Uma das mais tradicionais maneiras de se montar um cavalo, conhecida por todos que pensam em cavalos, independente de ser ou não um esporte, lazer ou simplesmente curiosos, é do chão. Desta forma a pessoa que for montar coloca o seu pé esquerdo no estribo do lado esquerdo do cavalo, flexiona sua perna esquerda, segura a crina e a sela com suas mãos, pula para cima (as vezes vemos, puxando a sela para si ao invés de só se apoiar), pega impulsão e pula com a perna direita, subindo no estribo, então passa a perna direita, bem esticada sobre a garupa do cavalo,  em seguida joga todo o seu peso no dorso do cavalo, sentando sobre o mesmo, e enfim coloca o estribo na perna direita.

De acordo com a história e especialistas em equinos, este hábito foi adquirido durante as Guerras, quando os militares carregavam em suas bainhas as espadas do lado esquerdo. Esta espada impedia que o militar tivesse uma abertura da perna que pudesse passar sobre a anca do animal. Com isso construiu-se este mito de sempre se montar cavalos do lado esquerdo do mesmo e do chão.

Sabem, muitas vezes, mostramos que a Arte da Equitação e a Equitação Acadêmica sempre são constituídas de formas e hábitos há muito tempo conhecidos e preservados pela nossa cultura equestre. Especialmente no Adestramento Clássico, Dressage, mantemos  tradições, culturas, técnicas e formas de montar e viver.

Porém é hora de pensarmos seriamente sobre esta forma de se montar cavalos.

Há muitos especialistas equestres (incluindo médicos veterinários) e profissionais da área da saúde humana que mostram e nos provam, através da ciência, que devemos com urgência parar de usar este hábito de montar cavalos do chão, por ser nocivo ao equino e ao humano, além deste hábito também trazer profundas consequências ruins às selas e material usados.

 

Explicando:

EM RELAÇÃO AO CAVALO:

A coluna vertebral do equídeo  pode ser dividida em cinco regiões: cervical (nuca e pescoço), torácica, lombar (principalmente a região dos rins), sacral e coccigea (base da cauda).

É importante realçar a tremenda importância da coluna vertebral na funcionalidade do cavalo, servindo de ponte elástica entre os membros anteriores e posteriores, transmitindo impulsão, mas mantendo uma estabilidade estrutural que lhe permite ainda suportar o peso “extra” do cavaleiro.

Isso só é possível graças a um complexo conjunto anatômico em que a coluna (aqui compreendida pelas vértebras e medula espinhal)  propriamente dita se encontra envolvida por uma poderosa massa muscular.

Porém esta anatomia não é adequada para uma rápida subida do cavaleiro a partir do chão, por não suportar o peso “extra” do cavaleiro somente de um lado, além do fato de muitos cavaleiros não serem hábeis o suficiente para subirem rápido e de forma equilibrada. Muitas vezes vemos o exemplo do vídeo com link abaixo em que o cavaleiro acaba puxando e pesando um lado e fazendo com que o cavalo se encurve, vire, a sela saia do centro, o que traz contraturas musculares e ligamentares no equino, podendo até chegar a luxações e subluxações torácicas.

www.youtube.com/watch?v=2_jQEYDApSI

Casey Brechtel, um veterinário equino e quiroprático em Galveston, Texas, descreve como um cavalo reage durante uma típica montaria do chão, em que o cavaleiro coloca o pé no estribo, agarra a frente da sela e, com um salto ou dois, monta o cavalo. "Durante este tipo de montada", diz ele, "todo o peso do cavaleiro é colocado no estribo esquerdo, exercendo um torque na sela para a esquerda." Infelizmente, assim como há estes torques de sela, há torques na cernelha e na coluna vertebral do cavalo.  A cernelha do cavalo é composta de vértebras dorsais. Cada uma delas inclui uma projeção de osso que aponta para cima, o processo espinal, que pode ser de até oito polegadas de comprimento. Segundo Brechtel, "Cada projeção (ponta óssea) serve como uma excelente alavanca, acentuando qualquer torque colocado na cernelha durante a montada. Imagine o torque que é gerado na vértebra com uma alavanca de 8 polegadas de comprimento ". Este torque repetido de cernelha pode fazer um número de pressões e desalinhamento na espinha de um cavalo. O dano potencial, Brechtel diz, pode incluir "subluxações torácicas (circulação restrita na parte de trás), assimetria escapular e dor muscular paravertebral torácica." Além disso, Brechtel explica, que quando um cavalo é montado a partir do solo, ele normalmente irá compensar, apoiando os corpo e ampliando sua postura. "Essa compensação pode causar problemas em outras regiões da coluna vertebral do cavalo." Em poucas palavras, diz Brechtel ", montar cavalo do chão é bom para o profissional de quiropraxia, mas ruim para o cavalo."

A veterinária de equinos Bianca Moutinho Grizendi, sócio-proprietária da RAIA Medicina Veterinária (empresa que trabalha com cavalos de salto, adestramento e também de passeio/lazer) afirma que há uma quantidade enorme de cavalos que sofrem de dores na coluna e a maior parte desses animais não são tratados para tal, nem sequer diagnosticados. Ela relata que: “Às vezes o simples fato  do excesso de peso, a equitação do cavaleiro (jogando todo seu peso na cernelha, sem distribuí-lo bilateralmente e por toda a sela) ou o equipamento utilizado (sela pesada ou pequena demais), já são motivos para causar dores de coluna constantes nesses animais. A força repetitiva de subir na sela sempre de um mesmo lado e ainda com uma grande altura do chão, fornece uma alavanca que pode sim gerar maiores dores e comprometimento do conjunto ósseo e muscular no dorso dos equinos. ” É comum que alguns animais comecem a mostrar sinais de claudicação alta (quando manca e a origem da dor está acima do joelho do animal) ou diminuição de performance quando estão com dores na região vertebral, especialmente porque as tuberosidades das vértebras (pontas ósseas dorsais) torácicas, principalmente, possuem pouca cobertura de musculatura, o que aumenta o impacto nesses locais.” Segundo Bianca, “ é extremamente importante que atentemos a esses pequenos traumas constantes que estamos gerando diretamente na coluna dos equídeos” e portanto, sua indicação é que sejam utilizadas plataformas para se montar nos cavalos e que seu animal sempre tenha acompanhamento veterinário, afim de diagnosticar e tratar rapidamente possíveis lesões.

EM RELAÇÃO A SELA E MATERIAL USADO:

 

Outro grande motivo para se parar de montar o cavalo do chão é a longevidade da sela e dos materiais usados nela.

Cada dia em que se monta do chão, o loro (parte de couro que liga a sela ao estribo) acaba sofrendo uma força para baixo (além da força da gravidade) por ser adicionado todo o peso do cavaleiro só de um lado da sela, que faz com que este loro aumente seu comprimento, ficando desigual ao loro do outro lado. Além de ficar maior, o loro também fica mais frágil, podendo arrebentar rapidamente e de forma inesperada.

Ainda segundo vários seleiros no mundo, a forma de subir no cavalo do chão, pode comprometer toda a estrutura e condição de sua sela. Ao se montar no cavalo a partir do chão, a sela é puxada contra o lado direito da cernelha do cavalo e o material colocado no suadouro é comprimido por este lado que com o passar dos anos, pode apresentar danos. Além disso, a estrutura da sela pode ser torcida. Normalmente a estrutura das selas é feita de madeira, e esta estrutura é a fundação da sela (ou seja, é o que dá sustentação, forma e funcionalidade à sela). Ao passar do tempo, a força exercida só de uma lado ao subir no cavalo do chão pode vir a torcer esta estrutura. Se esta estrutura é torcida, a sela estará arruinada, pois acaba pousando sobre o dorso do cavalo pressionando de forma desigual toda a musculatura, parte óssea e ligamentar do equino, o que pode acarretar  muitas dores e desconfortos.

EM RELAÇÃO AO CAVALEIRO:

 

Já no cavaleiro.... vejamos:

1)      O cavaleiro posiciona seu pé no estribo – o que isso significa? Significa levantar o pé a uma altura até alcançar o estribo – aqui já temos um problema... quanto mais alto o cavalo, mais alto o estribo e maior a exigência de alongamento de posterior de coxa do cavaleiro e menor a sua força de ação e equilíbrio. Neste ponto, se repararmos nos cavaleiros, vemos que cada um tem uma forma de colocar seu pé no estribo, sendo das mais diferentes: uns pegam de lado, outros de traz, outros se torcem, enfim... cada um tenta da melhor forma.... e vale lembrar que quanto mais velho o cavaleiro for, é mais complicado de alcançar o estribo .... sem falar que por vezes vemos pessoas colocando o pé inteiro no estribo e colocando o pé bem na axila (espaço intercostal esquerdo) do cavalo.

2)      Então, o cavaleiro se submete a uma super flexão da perna esquerda para poder alcançar com as mãos as rédeas e/ou crina e a sela de seu animal. Aqui temos um  maior desequilíbrio do cavaleiro e ainda temos uma forte concentração de força na sua perna direita e consequentemente em todo o corpo para poder se manter ereto e preparado para o próximo passo. Infelizmente, neste momento ainda vemos as pessoas com o pé na axila do cavalo, pressionando o pé contra o cavalo, ou seja, tocando o cavalo para frente com a ponta do pé enfincada na axila(espaço intercostal esquerdo) do animal.

3)      Dar impulsão com a perna direita – em muitos casos vemos os cavaleiros dando alguns pulinhos antes de realmente alçar a sela.  Aqui o cavaleiro já está todo contraído do seu lado esquerdo, então tem que preparar a impulsão e para auxiliar da os pulinhos, tudo isso antes que o cavalo se movimente, então tem-se toda a adrenalina de se dar o pulo correto em uma única tentativa e tem que ser rápido, afinal a perna esquerda rapidamente começa a doer e formigar pela hiper flexão de joelho e alongamento do posterior de coxa da perna esquerda.

4)      Então, após dar a impulsão, o cavaleiro concomitantemente puxa com suas mãos a sela para se equilibrar e faz força com a perna esquerda que está no estribo para conseguir estar na altura do cavalo. Esta força na sela, muitas vezes, faz com que a sela saia de seu local de apoio e se desloque para o lado esquerdo do cavalo, afinal, quanto menor a força da perna do cavaleiro, maior será a sua força nos braços puxando a sela para baixo e para o lado.

5)      Passar a perna direita sobre o cavalo – neste momento, o cavalo está tentando se reequilibrar da ação anterior, tendo todo seu corpo encurvado e pressionado no lado esquerdo. Já o cavaleiro também tenta se equilibrar, colocando seu tronco um pouco para frente e sobre a sela. Então ao tentar se equilibrar com uma perna só no estribo, acaba forçando para baixo a coluna do animal. Dái o cavaleiro passa a perna sobre a anca do cavalo.

6)      Ao sentar na sela – é chegado o momento de, finalmente, sentar a sela, porém o cavaleiro está fadigado pelo esforço e se solta na sela, comprimindo de maneira brusca, novamente o dorso do cavalo.

7)      Só então o cavaleiro pode colocar o estribo em seu pé direito e, muitas vezes, jogar seu peso sobre o estribo direito para “endireitar” a sela.

É frequente e corriqueiro vermos cavalos saindo ao passou ou se recusando a ficar parados enquanto o cavaleiro o monta. Isso se deve a toda a força e desconforto que o cavalo passa ao ser montado do chão.

Já o cavaleiro pode ter sérios problemas musculares, como ter uma perna esquerda muito mais forte do que a direita, ter rompimentos musculares, esforços e contraturas musculatura paravertebral e costal,  e dor nos braços. Também pode acontecer do cavaleiro não conseguir alinhar o centro do cavalo, com o centro da sela e o seu centro, tendo um desvio de um deles que poderá acarretar sérias consequências a curto, médio e longo prazo tanto para si próprio, como para a sela e para o cavalo. 

 

USANDO UM OBJETO PARA MONTAR:

 

Pela anatomia equina, pela anatomia humana e todas as forças concentradas e mostradas acima que agem e reagem durante a montaria, concluímos que a melhor forma de se montar é com o uso de uma plataforma que pode ser móvel ou fixa que diminua a diferença de altura entre o cavaleiro e o cavalo.

O ideal é conseguir montar sem colocar nenhum pé no estribo, somente se segurando na sela, passando uma perna sobre a anca do cavalo, dando uma pequena impulsão e se sentando com calma (se segurando em ambas as coxas e mãos) no dorso do cavalo, e por fim, colocar ambos os estribos.

Caso não seja possível tal plataforma, pode-se usar algum objeto que tenha o resultado de diminuir ao máximo as forças exercidas e causadas tanto no/pelo cavaleiro, no cavalo e na sela e demais equipamentos. Aqui pode-se usar escadas manuais tipo banquinhos, bancos fixos, troncos de árvores, cercas, ou qualquer outra coisa que se tenha no local. É muito importante que, neste caso, se monte no cavalo tanto do lado esquerdo como do lado direito, alternando sempre os lados para ter a ação compensatória tanto nos loros, nas selas, no cavaleiro e, principalmente, no cavalo.

Desta forma teremos uma vida útil dos materiais maior, o cavalo deixará de apresentar problemas comportamentais para ser montado, também diminuirá podendo até desaparecer e prevenir dores musculares tanto no cavalo como no cavaleiro.

Portanto, diga NÃO ao te pedirem para montar do chão, diga SIM a montar o cavalo pelo lado direito, e, principalmente, passe, sempre, a agir com delicadeza, educação e dignidade que o cavalo merece!! Sempre monte usando uma plataforma auxiliadora!!

Autores:
  1. Drª Bianca Moutinho Grizendi - médica veterinária clínica, sócio proprietária da RAIA Medicina Veterinária
  2. Prof. Leadnro Laudeslau - personal trainer especializado em esportes equestres, mentor do Treino do Ginete e mentor do Treinamento de Equidade, diretor técnico da Academia e Escola de Equitação Troá
  3. Mestra Priscila Thomazelli - esportista e professora de Dressage e Equitação Academica, mentora do Treinamento de Equidade, diretora técnica da Academia e Escola de Equitação Troá.